
"Eu quero uma camiseta do boy djódjia!" não acreditei naquela frase. Virei-me para tras devagar, olhei a figura de cima abaixo: mais ou menos um metro e meio de altura, cor de quem toma sol mais da conta, cabelos tão enrolados que a água para entrar seria o mesmo que um bandeirante desbravando as selvas do mato grosso tentando descobrir onde, afinal, estava a porra da linha do tratado de tordesilhas, um vestido tão estampado que Frida Kalo teria tido inveja, e olhos enormes... Negros iguais jabuticabas, olhando para mim e para a vendedora querendo dizer: se afaste, infiel, porque eu vim comprar uma camiseta do Boy Djódjia! A vendedora me olhou, virou pra pobre criatura e disse: "desculpe bem, mas eu não tenho essa camiseta que voce falou, nem sei o que é". Eu calado estava, calado fiquei. Havia entrado ali para comprar uma boxer branca inexistente, e a vendedora tentava me convencer a levar uma preta, mas meu perú não está de luto. Ainda não, pelo menos. "olha aqui, minha filha, voce tá achando que não tenho dinheiro é??? Olha aqui a carteira, queridinha, eu tenho dinheiro porque trabalho, e não sou ladrona nem inguinorante, eu só quero saber se voce tem uma camiseta do Boy Djódjia porque eu vou numa festa dos anos 80, e quero estar vestida pro tempo! Acendeu uma luz no meu cérebro,bem ali naquele vão enorme reservado aos melhores anos de minha vida. Falei para a vendedora com cara de susto e de quem descobriu que o ovo de Colombo parou em pé porque estava cozido: "ela quer uma camiseta com a estampa do Boy George! Aquele cantor do Culture Club!" e a menina me puxou pelo braço assustada, com receio de levar a camiseta errada: "nãããoooo, não é nesse clube aí não a festa, é na casa de uma amiga minha! Sabe o que é, o irmão dela vai fazer uma festa de anos 80, e a Mariínha, uma moça que arruma cabelo lá perto de casa disse que nos anos 80 só tocava Boy Djódjia que era uma bicha cantora de muito sucesso. E eu queria uma camiseta pra chamar atenção do povo, o Ricardo vai estar lá!" eu não fui nem doido de perguntar quem era o Ricardo. Depois da Mariínha cabeleireira, o Ricardo que se lascasse! A vendedora disse que realmente não tinha o Boy Djódjia, mas tinha umas com glitters bem acesas, ela iria gostar. Eu, que já me encontrava totalmente esquecido e à salvo de ser convencido a levar uma boxer preta, achei melhor olhar pros lados como se procurasse uma nota de 50 reais alada, e fui saindo de mansinho. Mas dei dois passos e pensei: "não... Desaforo isso... " voltei e peguei as duas discutindo qual cor se usava nos anos 80, com a garota adorando a idéia da camiseta com glitter piscando mais que tarado em esquina. Cheguei perto das duas, que me olharam, olhei a camiseta e falei em alto e bom som: "nos anos 80 não existia glitter em roupa, era lantejoula bordada!" saí da loja tranquilo, ouvindo a baixinha retrucando: "olha aqui, minha filha,se vc não tem o que eu quero não vem me enrolar porque eu trabalho, sou honesta, e não sou boba, fique sabendo vc, tá afim de me enrolar, cacete????

Um comentário:
Eu já conhecia esse conto pelo seu fotolog rsrsr... chorei de tanto rir rsrsrs...
Abraços!!!
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