sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O SABIÁ...


E assim que o dia amanhecia, eis o sabiá em minha janela. Como todos os dias, eu já o esperava, cantando, farfalhando as brumas da manhã com sua alegria mais que jovem, meio maritaca, coisa de aves da manhã de primavera. Aliás, ele chegava sempre antes das maritacas. Era ele quem anunciava o dia, como que querendo sentir o orvalho nas flores antes de outros pássaros. E era com seu canto, com seu barulho, que eu acordava. Me espreguiçava e dizia: bom dia. E parecia que o sabiá ouvia e retribuía cantando mais, fazendo bagunça na minha janela, onde ao lado há a jardineira com as flores. Era eu acordar, e o sabiá voava para a praça em frente à casa, como que com o trabalho feito. E eu tinha um dia feliz. De repente comecei a acordar mais tarde, e já não havia mais o sabiá. Mesmo agora, quando acordo cedo, fato raro, não escuto o sabiá mais em minha janela trazendo a manhã. Nem maritacas. Em breve elas retornarão, pois trazem o verão consigo em suas asas verdes com rajadas azuis da cor da tarde,e suas cabeças amarelas feito o sol. Mas o sabiá... Esse sumiu, levando consigo o meu bom dia que ele ouvia e retribuía. Não vou mentir que tenho ouvido um canto diferente meio distante, pelas manhãs. Não é do sabiá, nem mesmo sei que pássaro é, se sanhaço ou um vira-bosta (ps) qualquer, se solto ou de alguém. Mas não me vem à janela, nem me acorda todas as manhãs cantando pra mim. Os dias passam, a vida passa assim,dessa maneira... Trazendo presentes, e levando-os embora junto com as estações.tenho fé que o sabiá dos meus bons dias esteja em alguma janela por aí, acordando um outro sonhador... Que levante cedo o bastante para lhe responder, coisa que o afastou por eu não ter mais acordado a tempo de lhe desejar... Bom dia meu sabiá. Onde estiver...

Ps: vira bosta é o mesmo que o pássaro preto, e é assim chamado em algumas regiões do norte e nordeste.

E VIVA OS ANOS 80 !!


"Eu quero uma camiseta do boy djódjia!" não acreditei naquela frase. Virei-me para tras devagar, olhei a figura de cima abaixo: mais ou menos um metro e meio de altura, cor de quem toma sol mais da conta, cabelos tão enrolados que a água para entrar seria o mesmo que um bandeirante desbravando as selvas do mato grosso tentando descobrir onde, afinal, estava a porra da linha do tratado de tordesilhas, um vestido tão estampado que Frida Kalo teria tido inveja, e olhos enormes... Negros iguais jabuticabas, olhando para mim e para a vendedora querendo dizer: se afaste, infiel, porque eu vim comprar uma camiseta do Boy Djódjia! A vendedora me olhou, virou pra pobre criatura e disse: "desculpe bem, mas eu não tenho essa camiseta que voce falou, nem sei o que é". Eu calado estava, calado fiquei. Havia entrado ali para comprar uma boxer branca inexistente, e a vendedora tentava me convencer a levar uma preta, mas meu perú não está de luto. Ainda não, pelo menos. "olha aqui, minha filha, voce tá achando que não tenho dinheiro é??? Olha aqui a carteira, queridinha, eu tenho dinheiro porque trabalho, e não sou ladrona nem inguinorante, eu só quero saber se voce tem uma camiseta do Boy Djódjia porque eu vou numa festa dos anos 80, e quero estar vestida pro tempo! Acendeu uma luz no meu cérebro,bem ali naquele vão enorme reservado aos melhores anos de minha vida. Falei para a vendedora com cara de susto e de quem descobriu que o ovo de Colombo parou em pé porque estava cozido: "ela quer uma camiseta com a estampa do Boy George! Aquele cantor do Culture Club!" e a menina me puxou pelo braço assustada, com receio de levar a camiseta errada: "nãããoooo, não é nesse clube aí não a festa, é na casa de uma amiga minha! Sabe o que é, o irmão dela vai fazer uma festa de anos 80, e a Mariínha, uma moça que arruma cabelo lá perto de casa disse que nos anos 80 só tocava Boy Djódjia que era uma bicha cantora de muito sucesso. E eu queria uma camiseta pra chamar atenção do povo, o Ricardo vai estar lá!" eu não fui nem doido de perguntar quem era o Ricardo. Depois da Mariínha cabeleireira, o Ricardo que se lascasse! A vendedora disse que realmente não tinha o Boy Djódjia, mas tinha umas com glitters bem acesas, ela iria gostar. Eu, que já me encontrava totalmente esquecido e à salvo de ser convencido a levar uma boxer preta, achei melhor olhar pros lados como se procurasse uma nota de 50 reais alada, e fui saindo de mansinho. Mas dei dois passos e pensei: "não... Desaforo isso... " voltei e peguei as duas discutindo qual cor se usava nos anos 80, com a garota adorando a idéia da camiseta com glitter piscando mais que tarado em esquina. Cheguei perto das duas, que me olharam, olhei a camiseta e falei em alto e bom som: "nos anos 80 não existia glitter em roupa, era lantejoula bordada!" saí da loja tranquilo, ouvindo a baixinha retrucando: "olha aqui, minha filha,se vc não tem o que eu quero não vem me enrolar porque eu trabalho, sou honesta, e não sou boba, fique sabendo vc, tá afim de me enrolar, cacete????